
A sala escura e cheia de gente empurrou os nossos corpos um contra o outro e, quando dei por mim, embalados por aquela voz rouca e quente vinda das colunas da aparelhagem, tinha a minha mão encostada à tua, o meu pescoço encaixado no teu ombro e não havia um centimetro do meu corpo que não sentisse o teu (e o desejasse). Queria que naquele instante me tivesses olhado e bebido a minha alma com a avidez que eu desejava beber a tua e que tão harmoniozamente, como os nossos lentos movimentos compassados, ambas se fundissem e se espalhassem pela sala, sem corpo, sem barreiras, sem desejos.
Mas não me olhaste e passado pouco tempo (pareceram me segundos) de novo fomos afastados, como se os nossos corpos não tivessem vida própria, arrancados um do outro para sentidos opostos. Não creio que quisesses, tal como eu não quis, não creio que sentisses, tal como eu senti.
Dei uma volta rápida à sala, peguei num copo de vinho e voltei para ao pé da aparelhagem. Passamos, assim, a noite lado a lado, perto das colunas de onde vinha a voz roca e quente, sem dizer uma palavra, passeando os olhos pela sala, desviando os olhos de ti, de mim. Trocadas algumas palavras por força da ocasião, seguiu-se o silêncio, não dele, meu. Perdi a fala.